9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 10.4.13

1. PRESERVAO EM BOM TOM
2. MARAVILHOSO MUNDO IMPERMEVEL

1. PRESERVAO EM BOM TOM
Aps dcadas de explorao, fabricantes de guitarras investem em reflorestamento, priorizam a madeira certificada e buscam alternativas ao corte de rvores
Lucas Bessel e Larissa Veloso

O jacarand-da-baa  a madeira mais cobiada por fabricantes de guitarras e violes ao redor do mundo, por causa de suas propriedades acsticas e beleza visual. No entanto, aps dcadas de explorao, as fontes de madeiras raras como essa so cada vez mais escassas. Isso fez com que a indstria da msica colocasse a mo na conscincia e buscasse alternativas por meio de uma extrao menos agressiva e da pesquisa de novos materiais.

Guitarra do mexicano Carlos Santana tem madeira brasileira
 
A mais recente ao do tipo veio da americana Paul Reed Smith (PRS), que faz os instrumentos de msicos como o mexicano Carlos Santana. Desde o incio do ano, a empresa participa de um projeto de reflorestamento de Mata Atlntica no sul da Bahia. O Corredor Ecolgico Monte Pascoal  Pau Brasil vai replantar espcies nativas da regio, como o prprio jacarand, cuja explorao na natureza est proibida, em uma rea de cerca de 1.000 hectares. O objetivo  ligar os parques nacionais de Monte Pascoal e Pau Brasil por meio de uma faixa de floresta. Quando se conectam duas reas, as espcies se combinam e isso garante que sobrevivam por mais tempo, explica Ricardo Guedes, coordenador do Instituto Chico Mendes de Conservao da Biodiversidade (ICMBio), uma das entidades por trs da iniciativa. O jacarand sempre foi muito valorizado na nossa indstria, ento  mais do que correto apoiar um projeto como esse, diz Judith Schaefer, gerente de mercado da PRS.
 
Mas a fonte mais sustentvel de matria-prima para guitarras no est nas florestas, e sim na reciclagem. O prestigiado luthier brasileiro Mrcio Zaganin conta que recuperou centenas de peas de madeira que seriam jogadas no lixo aps uma reforma na Cmara Municipal de So Paulo. Era um material de excelente qualidade que estava simplesmente jogado em frente ao prdio, diz. Zaganin explica que toda madeira brasileira precisa receber a chamada certificao DOF (Documento de Origem Fiscal), que garante a legalidade da extrao. No Exterior, fabricantes como Gibson, Fender e a prpria PRS cada vez mais priorizam o uso de madeira certificada. Hoje, mais da metade da matria-prima vem de fontes consideradas sustentveis.

Esse esforo no impede que haja problemas. Em 2011, agentes federais invadiram uma das fbricas da Gibson nos EUA e apreenderam quase US$ 300 mil em madeiras exticas extradas ilegalmente na sia. Para evitar transtornos parecidos, outras empresas pesquisam e j adotam materiais alternativos, como fibra de carbono, bambu e at plstico reciclado (confira quadro ao lado). Com iniciativas como essa, a indstria dos instrumentos musicais espera estar cada vez mais afinada com a preservao da natureza.


2. MARAVILHOSO MUNDO IMPERMEVEL
Empresas usam pesquisa de ponta e nanotecnologia para transformar celulares, tablets e outros objetos comuns em verdadeiras fortalezas  prova de gua, lama, leo e at tinta
Juliana Tiraboschi

Deixar o celular cair na gua ou derramar lquido sobre o aparelho so descuidos corriqueiros. Segundo uma pesquisa da HzO, empresa americana que produz revestimentos impermeveis para circuitos eletrnicos, 58% dos entrevistados j perderam aparelhos dessa maneira e 63% topariam pagar US$ 99 extras por um smartphone  prova dgua. Outro estudo, da provedora de telefonia Sprint, tambm dos Estados Unidos, mostrou que a resistncia  umidade  a capacidade mais desejada pelos consumidores de celulares. Para atender a essa demanda, empresas correm atrs de novas tcnicas baseadas em nanotecnologia para impermeabilizar os mais variados produtos (leia quadro). Os consumidores carregam seus gadgets para todo lado, e o custo de repor um equipamento danificado  alto. A maioria dos tablets, smartphones e tocadores de msica no est protegida corretamente para o estilo de vida dos clientes, diz Ryan Moore, diretor de marketing da HzO.
 
O resultado  que um nmero cada vez maior de fabricantes busca proteo contra as ameaas dos lquidos. Estamos vendo uma demanda crescente, conforme os clientes descobrem as opes  disposio, diz Stephen Coulson, fundador da empresa inglesa P2i, que fabrica uma espcie de tinta invisvel que protege eletrnicos. J existem alguns celulares  prova dgua no mercado, como o Sony Xperia Go, o Lenovo A660 e o Samsung B2100 Xplorer. Eles contam com uma proteo eficiente, porm limitada, e aguentam submerses de at um metro de profundidade por 30 minutos, suficiente para prevenir danos em caso de exposio acidental a lquidos. Mas ainda no d para mergulhar e levar o telefone no bolso para fotografar o fundo do mar, por exemplo. Quanto maior a profundidade, maior a presso. A gua penetra com mais facilidade, afirma Ugo Dias, professor de engenharia eltrica da Universidade de Braslia.

REPELENTE - Mark Shaw, da UltraTech, usa tinta para demonstrar substncia super-hidrofbica durante a conferncia de tecnologia TED nos EUA

A demanda por impermeabilizao eficiente vai alm dos eletrnicos, alcanando roupas, sapatos, ferramentas e janelas. Comeam a surgir tambm no mercado produtos chamados de super-hidrofbicos, como o revestimento Ultra-Ever Dry. Ele pode ser aplicado a quase qualquer superfcie, como tecido, vidro e concreto. Esse qumico, fabricado pela americana UltraTech,  formado por duas camadas: a de baixo adere  superfcie em que  aplicada e a de cima, feita de nanopartculas, forma montinhos de bilhes de molculas intercaladas por espaos vazios. O ar fica aprisionado e cria uma barreira que repele a umidade, diz Mark Shaw, copresidente da empresa.
 
Alm de proteger contra a corroso e sujeira causadas por gua, lama, tintas e leos, tecnologias como a do Ultra-Ever Dry podem impedir o congelamento de estruturas e ter funo bactericida, j que, sem umi dade, os micro-organismos no sobrevivem. No caso de produtos eletrnicos, porm, ainda h algumas barreiras  super-hidrofobia  e isso limita o tipo de abuso que eles podem tolerar. Um dos obstculos  a espessura de smartphones e tablets, que se tornam mais finos a cada gerao, deixando menos espao para os circuitos eletrnicos. Essa caracterstica os torna mais suscetveis a um fenmeno chamado migrao eletroqumica, um tipo de corroso que acontece quando o lquido permite que ons metlicos trafeguem de um ponto a outro em um circuito, criando uma ponte para a eletricidade flutuar desordenadamente. Esse  o resultado quando algum derruba gua no celular: ele sofre um curto-circuito e apaga, diz Stephen Coulson, da P2i. Os revestimentos com nanotecnologia permitem que os fabricantes adicionem proteo sem terem que mudar o design, afirma.

Como ocorre muitas vezes na indstria da tecnologia, o nanorrevestimento da P2i tem origens militares. Coulson desenvolveu sua tecnologia de repulso de lquidos durante um doutorado na Universidade de Durham, na Inglaterra. Em uma parceria com o governo ingls, o produto foi aplicado em uniformes de soldados, que ficaram menos suscetveis a ataques com armas qumicas. Hoje, a empresa vende a substncia para fabricantes de eletrnicos, que ainda buscam solues para tornar seus produtos totalmente impermeveis. Um grande desafio  proteger os conectores do carregador de bateria e do fone de ouvido. Eles no podem ser revestidos porque precisam transmitir eletricidade, diz o engenheiro Ugo Dias. Por isso, a tendncia para o futuro  que os celulares  prova dgua venham com carregadores e fones sem fio. Quem sabe assim, um dia, os consumidores possam fazer ligaes, tirar fotos, ver vdeos e navegar na internet de dentro da banheira, da piscina e at do mar.

